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Sobre o meu passado comentado e minha falta de habilidade com vírgulas

7/05/2009

1. Aqui estou sem dignidade alguma. Sem palavras, sem frases, sem conclusões. Ser pesquisador é um inferno sem um demônio. Escrever é minha pior obrigação. Queria simplesmente ler, fumar um cachimbo e ficar divagando comigo mesmo ou com outro estúpido qualquer. Odeio ser obrigado a dizer algo brilhante, profundo e funcional.

2. 4 x 17 gramas de álcool + 4 x 25 gramas de álcool. Ou paro com isso ou morro. Minha ressaca moral dura exatos 30 minutos quando acordo. Ontem durou 24h.

3. Queria esquecer esse saudosismo desanimador e me encantar por algo novamente. Planejar 2010 é minha fuga. Irei dominar o mundo. Irei dominar o meu mundo.

4. Pedaços do falecido Cidade do Sonho. Eu era uma criança tão inocente...Decidi preservar os textos sem vírgula porque isso é a única coisa que permanece após estes anos. Tudo o que guardo da minha adolescência é minha total falta da habilidade com vírgulas.


“O mundo é um circo e eu estou sentado na primeira fila. Estou desesperado para ver o leão devorar minha alma. Estou ansioso para ver o malabarista cair lá de cima para delírio da multidão. Estou contando os segundos para ver as dançarinas e suas pernas hipnotizantes que levam ao inferno quem as vê. Estou ansioso para ver o mágico fazer desaparecer a esperança. Terá também a entrada triunfal do homem-bomba. Ele se despedaçará na nossa frente em sinal de protesto e todos irão se admirar. Quero ver o palhaço roubar o amor da minha amada. Quero ouvir os gritos delirantes da multidão quando o mestre de cerimônia gritar: Calem-se! Quero rir de forma estúpida e desesperada. Só sairei daqui quando não mais souber quem sou. Vamos, aplauda! Bata palmas para esse show patético. Você pode não saber, mas esse mundo é um circo e você está sentado na primeira fila.”


Comentários póstumos: Eu escrevia pior do que escrevo hoje. Sou péssimo com concordância verbal. Uso períodos curtos para evitar a utilização de vírgula (exatamente como estou fazendo agora). Esse texto está cheio de frases feitas. Devo ter coletado uma porção de coisas de letras de música. Platéia?? Nós estamos no meio do picadeiro, Bruno, meu chapa.

Não consigo adestrar as palavras. Não consigo prender minhas idéias. Não tenho a menor noção de regras. Não tenho vontade de fazer pensar. Não tenho habilidades com formas. Não sei criar enigmas. Não sei criar o absurdo. Minhas imagens são simples. Se tiver que ser criativo. Se tiver que saber jogar com as letras. Sinto muito. Não serei eu. Não escrevo poesias nem romances. Descrevo sentimentos.

Comentários póstumos: Jesus Cristinho, que texto horrível. Devo ter feito isso na tentativa de receber elogios, na mais baixa utilização da psicologia reversa. Adorava me passar por coitadinho para seduzir e comover as platéias. Eu era uma vergonha.

De repente veio a chuva.

Pude sentir minhas mãos geladas. Pude tocar a água que caia.

O frio chegou.

E as nuvens escuras engoliram a luz.

Veio a solidão e o silêncio.

E todos entraram em suas casas.

Todos dormiram seu sono mudo.

Todos se esqueceram do espetáculo que é quando a chuva cai.


Comentários póstumos: Aqui um belo exemplar da minha pior frase. Novamente os períodos curtos...Isso me faz lembrar de cada dia que vivi em 2003. Gosto deste texto.

5. Isso é uma volta?? Não me faça perguntas tolas...

Bloggiter #2

3/06/2009

>> Vigiar e punir
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Festa estranha com gente esquisita

3/01/2009

Premiações são estranhas. Como os prêmios possuem geralmente uns 5 indicados para cada categoria e apenas 1 vence, inevitavelmente 80% dos convidados vão sair da festa putos. E não há nada mais divertido do que ver a cara de merda de quem perdeu. O problema é que essas festas são todas certinhas, com todos os convidados de terno e gravata, vestido longo e cabelo milimetricamente penteado.

Porém, todos os anos somos brindados com a festa mais bagaceira, derrubada, bêbada e sem noção do planeta: NME Awards. É quando um bando de gente bizarra, bandas estranhas que só a NME conhece, alcoólatras e drogados se juntam para comemorar o melhor da música britânica.

Tudo acontece no O2 Academy Brixton, uma casa de show pequena que serve para criar o ambiente intimista de um pub inglês. As categorias são progressistas (vilão do ano, herói do ano, pior álbum do ano...) e ninguém deve se importar muito em perder. No final das contas, ganhar o NME Awards não vai muda a carreira de ninguém. Ou seja, eu nem sei quem ganhou alguma coisa, só me interesso pelas fotos e pelas histórias de bastidores. Então, vamos ao que importa:

Linda essa fantasia... No carnaval do Rio ia ser um sucesso. Imaginei até um nome: "Urubu Rei na selva de Ijaçanã".

Esse cara de azul não é a cara do Noel Gallagher mais novo?

Ok, podia jurar que o The Horrors já tinha sido esquecido lá em 2007. Gostei do estilo defunto emo-gótico deles. E aquela versão morena do primo itch no canto esquerdo? Ou seria a Samara do Chamado?

Esse é o tapete vermelho do NME Awards.

Enquanto no Globo de Ouro é servido um jantar sofisticado, eis o que é servido aos convidados do NME Awards...

É assim que a festa acada: com classe e elegância. Eu acho isso um desperdício de Smirnoff...

E esse cabelinho estilo "As panteras" do Alex Turner????


Ok, ok. O Blur também tocou na festa depois de sei lá quantos anos parados. Mas quem se importa?
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Bloggitter #1

2/28/2009


>> Deus não me ouve ou eu não ouço Deus?<<
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Sobre o cinema matemático de Aronofsky

2/26/2009

Minha confiança em cineastas não costuma durar muito tempo. Talvez isso seja fruto de minha pouca capacidade de criar laços afetivos com qualquer coisa. Minha entrega inicial logo se transforma em decepção sem volta.

Quase toda a cinematografia de Aronofsky parece fruto de cálculos matemáticos precisos. E embora a racionalidade esteja sempre em maior evidência, diante de suas obras ainda somos colocados dentro de um jogo de sensações nada exatas.

Pi talvez seja uma metáfora sobre a própria carreira do diretor. Um alucinado perfeccionista, detalhista e obsessivo em busca de uma fórmula que explique a vida. No caso de Aronofsky, a busca pelo cinema milimetricamente perfeito.

A fórmula de Darren Aronofsky é arriscada. Uma dose mínima que extrapole o estabelecido na tabela pode causar erros detestáveis: A Fonte da Vida. No entanto, quando todos os ingredientes são adicionados precisamente, temos o cinema matemático e perfeito de O Lutador.

Alguns podem odiar o filme, mas poucos conseguirão apontar o porquê. Os defeitos talvez estejam lá, mas pouco visíveis. Aronofsky consegue criar uma obra que não é perfeita, mas que não deixa seus erros e equívocos perceptíveis. Tudo está colocado em seu lugar: luz, câmera (as movimentações mais delicadas de sua filmografia), trilha sonora, atuações, edição. Não conseguiria apontar um só defeito.

A câmera, quase sempre na mão, só sai de sua discrição quando as lutas exigem uma agressividade um pouco maior nos planos. O que pouco acontece. E como é belo o "contra-luz" de Aronofsky. Como é bela a canção de Bruce Springsteen...

Sei que não é o seu melhor trabalho, mas não sei os motivos que o coloca inferior a Pi, por exemplo. Continuo confiando em Darren, embora o meu ímpeto de descrédito e desprezo sempre entre comigo na sala de cinema quando vou assistir qualquer obra sua. Maldito Aronofsky!



Sobre o seu precioso tempo

2/25/2009

Vamos recomeçar os trabalhos por aqui com algumas dicas e conselhos musicais. Tudo baseado no que andam dizendo por aí e no que não andam dizendo por aí.

Não perca seu tempo com:

White Lies/Glasvegas – A primeira ficou em primeiro lugar na Inglaterra logo com o primeiro álbum. O que não significa absolutamente nada já que a parada britânica é muito, muito bizarra. No top 20 dessa semana, por exemplo, temos coisas do tipo Bette Midler, Take That, Lily Allen, Lady Gaga e Seasick Steve... White Lies e Glasvegas estão dentro da nova onda indie inglesa: bandas que se vestem de preto, vocal grave, letras depressivas e My Space gótico. Se a música fosse boa a gente até perdoava a cópia que eles fazem do Joy Division, como a gente sempre perdoou o Interpol. O problema é que as duas bandas são tão, mais tão chatas, que eu até hoje não consegui ouvir mais de 2 músicas seguidas de nenhuma delas. As letras são cheias daqueles clichês melancólicos que até uma ameba depressiva conseguiria escrever melhor. Dica: escute uma ou duas músicas de cada banda e pronto. É só para você lembrar de sair correndo quando um monte de garotos pálidos vestidos de preto passar por perto.


Little Boots – a nova futura grande sensação do ano. 10 entre 10 revistas apontam essa criatura como a cantora que irá estourar no próximo verão. Sinceramente, espero que o verão nunca chegue. Little Boots é tão lugar comum como qualquer outra cantora loira descolada que canta electro. Até a Lily Allen que não canta nada, fez um álbum de electro mais divertido do que qualquer música que Little Boots tenha feito. Não dou três invernos para essa coisinha desaparecer. Problema é que os britânicos estão sedentos pela nova Amy... Dica: Se você quiser coisa nova, escute a Lykke Li.

http://www.myspace.com/lykkeli


Perca seu tempo:


The Magistrates: Divertido, despretensioso, dançante, alegre e classudo. Estão prestes a lançar o primeiro álbum. Talvez nunca estourem. Não espere por isso. Escute e não se preocupe em decorar o nome da banda ou as letras. Apenas se divirta. É para isso que o Magistrates serve.

http://www.myspace.com/magistratesband

The Bishops: Eles são os novos The Coral. Com a mesma sonoridade sessentista da banda de James Skelly, o Bishops consegue fazer aquela viagem ao passado sem esquecer que estamos bem aqui, em 2009. Coisa que pouquíssima gente consegue. O vocal de Mike lembra muito os timbres de Ricky Wilson do Kaiser Chiefs, com uma energia contida e sem exagero. Coisa fina.

http://www.myspace.com/thebishopsuk

Sobre Obama, RENT e sequelas

11/07/2008

Então é isso? Teremos um negro como imperador do universo? Essas eleições estão contagiando os mais desavisados corações. Minha mãe todo dia me pergunta se o “Obanha” já ganhou. É a Obamamania chegando na periferia de Fortaleza. Uma loucura. E o Obama é o primeiro popstar da política produzido pelo marketing. Se ele fosse um artista, seria algo como a Britney ou um dos garotos do Backstreet Boys. Talvez ele seja um artista nato. Com todo aquele seu talento para repetir o mesmo texto em todos os discursos e ter mais intimidade com as câmeras do que a Oprah, ele só pode ter dons artisticos. E quando ele ganhar? Teremos uma turnê mundial? Algo do tipo Obama’s Confessions on a Dance Floor Tour? Seria genial...

Atualização: E ele ganhou! Sei não...Com esse sistema de votação que permite votos por e-mail, pombo correio e sinal de fumaça, nunca de sabe...

E eu continuo achando que o Bush Jr. não vai sair da presidência sem antes explodir o planeta. Já tô até imaginando ele no último dia de mandato enchendo a cara de whisky e apertando todos os botões vermelhos que detonam bombas nucleares. Para nossa sorte, se o Bush Jr. pensar em mandar uma bomba para o Brasil, ela provavelmente vai acabar parando na Argentina. Então, estamos seguros...

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Confesso que meu conhecimento sobre teatro só não é menor do que meu conhecimento sobre a Namíbia ou o Burundi. Até sei todas aqueles conceitos básicos sobre Grotowski, Stanislavski e Brecht, mas acho todos eles sem importância filosófica, biológica ou química. Sem falar que as pessoas de teatro são quase tão chatas quanto as pessoas do cinema. Ou seja, meu desconhecimento sobre teatro é fruto de um preconceito que não sei se quero perder.

Neste domingo fiz um programa improvável: fui ver um musical. O que me chamou atenção foram as fotos que vi pela Internet de uma adaptação de Rent (que obviamente desconheço), uma peça da Broadway. Os atores apareciam vestidos com um figurino que era uma mistura de RBD e T.A.T.U e o release era tão risível quanto as roupas. Porém, tudo parecia no fim das contas ser uma grande comédia, um programa light para rir da tosquice e vergonha alheia. Um erro. Não que a peça tenha siso espetacular.

O problema é que o musical era tosco do tipo que dá raiva e não do tipo que faz rir. Espera-se de um musical atores que cantem (no mínimo) razoavelmente bem, certo? Pêmmmm! Errado. Para o diretor de Rent isso foi o que menos importou. E olha que eles fizeram testes com 150 candidatos....Espera-se de um musical um bom som, certo? Pêmmmm! Errado de novo. Para sorte da platéia, em vários momentos o microfone dos “cantores” sofria interferência ou desligava. Uma maravilha. Sem falar das interpretações que fariam qualquer atriz de Malhação parecer a Fernanda Montenegro. E o enredo (ahhhh, eu posso falar disso, acho que saco um pouco de narrativa...), bom, e o enredo? Juro que fiquei durante uma hora tentando entender qual era a história da peça e que diabos estava acontecendo em cada cena. E no final ainda deram 10 min de intervalo. Deus! Acho que era o tempo para ir até a avenida e se jogar na frente do primeiro carro que passasse.

No final das contas, o tal musical parecia uma peça de conclusão de turma de teatro da oitava série do Ari de Sá. Claro que tudo isso é opinião parcial, descabida, sem fundamentação teórica ou prática. Portanto, se alguém da peça chegar até este blog, não fique triste. Já adianto que eu estou completamente equivocado. A peça de vocês foi jóia! Iradinha! Uhuuuu, galera! Vamo nessa! Vocês são fera!
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E Recife, hein? Será que vai???

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Eu prometi colocar aqui o perfil dos grupos ideológicos existente em Fortaleza, certo? Esqueçam...Acabo de descobrir que deletei o texto. Sei, eu sei que sou sequelado

Sobre livros, história da arte, Fortaleza e ódio sem motivo

10/25/2008

Livros nunca foram referências para a formação do meu pensamento. Em uma escala de fontes de informação, o livro deve ocupar o terceiro ou quarto lugar. O motivo é simples: não gosto de ler. E não tenho vergonha ou pudor de dizer isso. Quando eu era criança e não conseguia ler os livros que o colégio receitava eu me sentia um imbecil. Quase sempre questionava: por qual motivo não pedem para ver um desenho animado? Não consigo me concentrar nas palavras e não me sinto emocionalmente envolvido. A imagem sempre foi meu maior foco de interesse. E não me venham dizer que livros também são visuais...Claro que essa minha birra com livros compromete minha escrita e leitura. Até hoje sou péssimo com as regras gramaticais. Nunca sei onde colocar uma vírgula. Porém, não me sinto defasado intelectualmente com relação a uma criatura que devora 8 livros por mês. Estou muito satisfeito com o conhecimento adquirido no cinema, na música e na Internet.

Escrevi tudo isso para finalmente falar bem de um livro (!). Quando estamos no campo acadêmico você tem apenas uma opção: ler os livros. Sendo assim, faço um esforço descomunal para ler um ou dois títulos de grandes teóricos. Dou meu jeitinho lendo mais artigos do que obras completas, mas ainda assim é um processo doloroso.

Nessa luta contra os livros, cheguei até “O fim da história da arte”. Hans Belting fica na linha tênue que separa os teóricos picaretas e exagerados dos teóricos geniais e provocadores. Belting me fez ter tantas dores de cabeça nesses últimos dias como nenhum teórico causou. Se eu já tinha os meus questionamentos raquíticos e sem fundamentação sobre a história da arte, o cara conseguiu trazer ainda mais problema para os dois lados do meu cérebro. Belting não tem o academicismo exacerbado de Argan, nem a chatice metódica de Gombrich.

O autor critica museus, historiadores, público, artistas e ele mesmo. Tudo com uma dose cavalar de veneno e excesso. Sempre gostei de teóricos catastróficos e exagerados. Acredito que através de um pensamento que extrapola os limites do plausível podemos chegar a um conceito e idéias razoáveis.

No caso da história da arte, em que tanta gente já falou tanta coisa sem novidade, Hans Belting é uma benção, sacudindo toda a instituição artística. E se alguém sair da leitura de “O fim da história da arte” sem pelo menos uma ou duas pulgas atrás da orelha, faça como eu: esqueça os livros e vá ao cinema.
Segundo o Wikipedia, Fortaleza tem 313,8 km² de área e 2.473.614 habitantes. Um erro. Na verdade, a população de Fortaleza não passa de 250 pessoas e sua área não deve ser maior do que poucos 20 km². Eu, por exemplo, encontro sempre com as mesmas pessoas no meu ônibus e meu limite territorial não passa de um corredor que liga a minha casa ao Benfica. Ou seja, nossa cidade é um vilarejo, quiçá um condado.

Porém, não estou aqui para contestar os dados imprecisos do IBGE. Estou aqui para fazer um mapeamento (utilizando meus dados imparciais) dos grupos ideológicos existentes em nossa nanica cidadezinha (assim, bem pequenininha).

Divido a cidade em 5 grupos muito bem definidos: Aquele-povo-que-usa-sandália-de-couro, Aquele-povo-que-pensa-que-mora-em-londres, Aquele-povo-que-vai-pra-balada, Aquele-povo-que-não-frequenta-a-regional-2, Aquele-que-está-em-todos-os-lugares.

De hoje em diante, cada post virá com a descrição de um dos grupos. Hoje vamos começar por...

Aquele-povo-que-usa-sandália-de-couro

Onde encontrar: No centro de humanidades de qualquer universidade pública, em um “bar derrubado” (mas não um bar derrubado da periferia. Tem que ser ali pelo Benfica ou adjacências. Sabe como é... a periferia é tão longe...) ou em uma festa com cultura nordestina de raiz.

Do que gosta: Chico Buarque na terra e no céu, uma coisa MPB assim anos 70 – Gal, Bethânia, uma coisa MPB assim bem cult – Tereza Cristina ou Oswaldo Montenegro, uma banda de pífano do Juazeiro, qualquer banda com sotaque de Juazeiro, qualquer grupo artístico que tenha as palavras “trupe”, “brincantes” ou “cordão”.

Programa favorito: Fazer uma ciranda bem bonita com gente de todas as cores, todos os credos...

Diálogo:

- Bob?
- Quem? O Marley?
- Tu curte?
- Prefiro Zé Ramalho
- Bóra comprar um vinho?
- Eu vou é fumar um gudang...

Que banda chata é essa “Cérebro Eletrônico”? E lá estão os jornalistas culturais querendo transformar eles na nova coisa mais cult do mundo. “A substituta do Los Hermanos”. Eles são muito inventivos e usam brinquedos para produzir sons em algumas canções – Nossa! Que criativo! São os novos Beatles...Jesus, deviam trancar eles e o Teatro Mágico em um quarto por toda a eternidade. Deixar eles discutindo quem é a banda mais cool, intelectual, bacaninha e chata do país. Deviam colocar a banda do Junior Lima para tocar lá dentro. Talvez eles se matassem em uma ou duas semanas.

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Hoje estou com ódio de nada. E não existe nada pior do que odiar quando não há ninguém ou nada para culpar.

Prometo voltar mais feliz da próxima vez. Vou comer muito chocolate antes de escrever qualquer coisa.

Se você conseguiu ler tudo que eu escrevi até aqui, PARABÉNS! Você deve ser uma dessas pessoas normais que adora ler livros ou simplesmente não tem nada melhor para fazer. Será que alguém anda nesse blog?

Abraços aos meus leitores imaginários!

Tchau!

Sobre minha condição de publicitário e o meu sonho de ser uma pedra

10/08/2008

Imagino que minha mãe nunca sonhou ter um filho publicitário. Mães que freqüentam Paris, Bruxelas ou Londres talvez sonhem em ter um filho redator, diretor de arte ou assessor de comunicação. Minha mamãe que passa as férias na pequena Chaval não deve ter imaginado que eu seria quem eu sou hoje. Não fico ainda mais incomodado com minha profissão porque não faço a menor idéia do que poderia ser. Aquela coisa de vocação só existiu quando eu era um adolescente bobo.

Interessante perceber como a cada fase da nossa vida um dos tempos se torna mais importante. Quando somos crianças é sempre o tempo presente o mais intenso. Não temos um passado, não nos interessamos nem nos preocupamos com o futuro. Quando chegamos na vida adulta, o passado é apenas uma lembrança que já foi, o presente é sempre algo incerto e estamos sempre trabalhando e planejando o futuro. Na velhice viramos animais saudosistas, com um presente que já não importa e um futuro inevitavelmente breve.

Eu estou na fase de não ter certezas sobre meu futuro, de desprezar o meu passado e de ficar indiferente ao meu presente. A única força que tenho para acordar todos os dias é a minha fé de que esses momentos são apenas uma preparação para o que virá, não que o que estar por vir seja algo bom. Apenas tenho esperado que algo aconteça.

Forma-se em Comunicação Social é como se você descobrisse estar com câncer: a única coisa que você pode fazer é se conformar. Como disse, estou conformado. Fazer o quê?

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Ontem vi o Profissão Repórter na Globo. Aquele programa com estudantes bonitinhos de jornalismo. Um caso apresentado me chamou atenção: um jovem senhor de quarenta e poucos anos que nutriu uma paixão não correspondida por uma mulher durante 20 anos. Ele casou, nunca teve filhos e virou cantor de bar. Ele cantava pensando que ela de alguma forma pudesse ouvir aquelas canções de amor. De alguma forma os dois se encontraram após todo esse tempo. Ele pôde finalmente dizer tudo que sentia e que continuaria esperando que um dia o seu amor pudesse se concretizar. Um primeiro encontro foi marcado. Ela não foi. “Eu já esperava por isso”, disse ele com uma prazerosa dor romântica estampada em seus olhos. Em outra cena, o jovem senhor vasculhava uma velha caixa cheia de cartas que jamais foram entregues à sua esposa e à sua paixão impossível. “Estranho isso, no começo é tudo tão bonito e depois de um tempo tudo vai desaparecendo...”. Ele não resiste e chora.

Eu não deveria mais me emocionar com coisas desse tipo. Prometi a mim mesmo que deveria ser uma rocha. Não consigo. Tenho medo de ter uma história parecida. Tenho medo que a forma que eu sinto e vejo o mundo não seja adequada para minha sobrevivência. Eu deveria ser uma pedra. Como diria Walter Franco: “Tudo é uma questão de manter/A mente quieta/A espinha ereta/E o coração tranqüilo”.


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Meu projeto não anda, Salvador já não dá mais, Recife cada vez mais longe e o fim desse blog cada vez mais perto. Eu não deveria estar aqui. Os outros é que deveriam estar aqui. Isso é o primeiro sinal de que devo colocar um ponto final.

PS: Nunca fui muito com a cara do Tv On The Radio, mas “Dear Science,” é a uma das coisas mais iluminadas desse ano tenebroso para a música pop. Ainda bem que tem o novo Cd da Britney Spears para salvar 2008....

PS2: Já escutei o Cd do Glasvegas umas 10 vezes e ainda não engoli a banda. Não sei. Os arranjos, melodias, vocais... Tudo igual e monótono.

PS3: O novo do Brian Wilson é... Bom, não era bem o que eu esperava. Pô, mas esse é um Cd de um cara que fez um dos discos mais lindos do mundo (Smile) e que escreveu umas das músicas mais fodásticas da humanidade (Can't Wait Too Long). Então fica por isso mesmo...

PS4: Hoje a criatura apareceu no meu caminho de novo. Isso só pode ser maldição. Se eu fosse alguém impulsivo, teria segurado as mãos dela, dito tudo que sempre quis dizer e depois eu estaria descarregado. Eu seria imediatamente configurado com um psicopata, mas quem se importa?


PS5: Porra, eu preciso controlar o uso dos adjetivos. Isso é muito chato...

Tchau! Boa noite, bom dia, boa tarde e boa sorte!

: )

Sobre escolhas que levam ao desastre

10/01/2008

Ontem estive jogando um jogo-filme interativo. Clichê, mas viciante. Ao final de cada seqüência você decide qual destino a personagem deverá tomar. Não indico aqui o link para o jogo porque não quero que você perca tempo com bobagens. Melhor ler um livro ou ver um bom filme. De repente é melhor ficar olhando para as paredes contando até um milhão.

Ao que tudo indica minha vida chegou ao ponto crítico. Aquele momento em que todas as merdas e maravilhas que você fez durante toda a vida estão perto de colidir. Esse é o momento em que tomamos as decisões que nos farão deixar a inocência e da qual nos arrependeremos para o resto da vida. No jogo, decisões incorretas nos levam a morte. Não creio que seja o meu caso. Ainda não.

Tenho conversado muito com meus botões esses dias, mas eles parecem estranhamente mudos e indiferentes. Nem mesmo eles me dão ouvidos ou me levam a sério. Que se fodam meus botões! Azar o deles que vivem pregados em blusas baratas que vestem um borra-botas. Minha gata ainda me escuta. Ainda. Embora sua velhice comprometa sua sanidade e compreensão, ela parece sempre atenciosa. Ou talvez ela seja uma dissimulada que vende atenção em troca de comida.

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Ontem a vi novamente caminhando pela rua.

Queria que ela estivesse ao meu lado.

Queria eu puder dizer que em meus sonhos todos nós somos salvos.

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PS> Redescobri o The Walkmen essa semana. Parece destino. Havia perdido a banda no mar do My Space. Não lembrava como a voz do Hamilton Leithauser pode ser doce e agressiva ao mesmo tempo. You & Me é uma beleza. Sei que vou perdê-los novamente, mas não é assim que deve ser?

Sobre minha primeira e última paixão e os anos 2000

9/27/2008

Lembro vagamente da minha primeira paixão. Na época usava óculos de aro grosso e lentes amareladas. Um topete saltava da minha cabeça completando o estilo “perseguido político da ditadura militar”. Um horror. Não deveria ter mais de 8 anos e não sabia quanto o mundo era maior do que a quadra em que morava.

Nessa época eu costumava esboçar poeminhas de amor em meu caderno do Jaspion e um desses foi involuntariamente descoberto pelo meu foco amoroso. Minha vontade estúpida de convidá-la para a festa da escola se desfez. Ela zombou de mim por 2 ou 3 ou três semanas e preferiu ir à festa com um garoto menos franzino e raquítico.

E assim acabou. Meu primeiro quase romance terminou com 5 folhas do caderno do Jaspion sendo raivosamente rasgadas.

Minha última paixão foi cheia de clichês platônicos. Acreditei realmente ter encontrado o meu par perfeito. Ensaiava frases, piadas e declarações milimetricamente calculadas para emocionar. Nunca cheguei mais perto dela do que compartilhar o mesmo ambiente. Deus, não satisfeito com minhas desgraça, colocou o inferno ao meu lado. Agora, convivo sempre com a possibilidade de cruzar com ela nos meus caminhos rotineiros.

Estou cansando disso tudo. Sinto-me velho e cansado. Hoje, uma garotinha me chamou de “senhor”. Imediatamente senti rugas dobrando em meu rosto. O mundo não teve a oportunidade de ver um homem envelhecer 50 anos em pouco mais de 2 segundos.

Li essa semana que Marcelo Camelo é o ícone da nossa geração. Quanta estupidez. Todos agora se apressam em “salvar” essa década. Todos se apressam em garantir que algo dos anos 2000 seja lembrado. Uma corrida em busca de heróis. Nossa década não precisa de um único ícone. Nossa década não precisa de nenhum Renato Russo, Chico Buarque ou Tom Jobim. Nossa década não precisa de Marcelo Camelo. Esses 8 anos devem ser lembrados pelo caos, pelos não-movimentos, pelo efêmero e pela quantidade descomunal de referências. É injusto com os anos 2000 que eles sejam lembrados somente por dois ou três nomes.

Todos nutrem uma certa nostalgia inexplicável. Odeio clássicos. Odeio tudo o que aconteceu ontem. Não tenho saudades do meu caderno do Jaspion. Não tenho saudade dos meus óculos de aro grosso. Queria encontrá-la amanhã. Queria puder contá-la histórias improvisadas, tentar lembrar inutilmente das declarações agora esquecidas e dizer o quanto tudo está um tédio. Queria encontrá-la não mais por conta de sentimentos tolos, mas como uma tentativa desesperada de salvação.

PS: No próximo post volto ao meu querido cinema. Ou não...

Sobre críticas passionais

9/23/2008

Quando você lê um texto sobre o Oasis sabe que ele inevitavelmente foi escrito ou por alguém que odeia ou que ama os irmãos Gallagher. Isso provoca uma certa desconfiança ao ler resenhas e críticas de seus álbuns. Você nunca sabe se aquilo é fruto de uma raiva doentia ou de um amor psicótico.

Hoje saiu a primeira resenha do novo Dig Out Your Soul na imprensa brasileira. Um tal Braullo Lorentz deu 1 estrela para o trabalho e escreveu um texto que poderia ter sido publicado em 98, 99 ou 2000. Aquelas mesmas frases clichês do tipo “cópia dos Beatles”, “riffs que se repetem”, “eles são polêmicos” etc. “Citações aos Beatles”? Nossa, que sacada! Ninguém nunca disse isso! Na verdade ninguém nunca percebeu isso. Alguém precisa dizer para esse jornalista que os irmãos Gallagher nunca negaram as citações aos Beatles, pelo contrário, sempre assumiram. Aceito qualquer argumento novo para odiar o Oasis, mas definitivamente não levo mais a sério esses.

Então, ao contrário da imprensa européia que quase foi unânime em descrever o álbum como o melhor da banda nos últimos 10 anos, o pequeno desinformado Braullo Lorentz preferiu publicar o mesmo texto que ele provavelmente escreveu sobre o Don’t Believe the Truth, mudando apenas os nomes das canções.

E isso é a crítica de música brasileira: preguiçosa e passional.

Sim, esse texto foi escrito por fã do Oasis.

PS: E o tonto do jornalista praticamente admite que ouviu o álbum via download ilegal. Alguém deveria denunciar ele para a Polícia Federal. Até rimou...

Sobre críticas subjetivas e sentimentos inexplicáveis

9/16/2008

Hoje volto a falar sobre cinema. Isso significa que escreverei linhas extremamente passionais e nada especializadas. Vou começar falando do que eu não consigo falar. Fernando Meireles é uma boa pessoa. Poucas vezes gosto dessa gente que se diz cineasta. Não estou falando das suas obras, falo do que eles são. Geralmente eles são arrogantes, chatos e com cara de gente mal cuidada. Fernando é bacana, parece ser aquele tipo de cara com o qual se pode conversar com a mesma sinceridade sobre a obra do Nam June Paik ou sobre o Big Brother Brasil. Ou seja, um lord.

Domingo fui ver o seu mais recente trabalho, Ensaio Sobre a Cegueira. Acompanhei quase todos os posts do blog da produção do longa e fiquei impressionado ao ver como um diretor tão experiente e renomado pôde demonstrar sem pudores suas fraquezas e inseguranças em público. Fernando é meu ídolo!

E lá estava eu diante do filme-adaptação. Confesso que queria gostar do filme. Confesso que fiquei durante todo a projeção tentando me emocionar ou me conectar com algum dos personagens, mas não deu. Ensaio é tão frio e distante que só não é algo esquecível por conta da sua beleza. Seu eu pudesse roubar um verso de Tom Jobim, diria que Ensaio é uma roseira que só dá rosa, mas não cheira.

Não sei se um filme nasce mesmo na sala de edição. Talvez não. Mas definitivamente um filme pode ser destruído na sala de corte. Não digo que Ensaio é uma desgraça. Não é. Mas é uma obra sem alma. Odeio criticar filmes com argumentos subjetivos, mas não encontro outra forma de descrevê-lo.

Ensaio me fez pensar também sobre o papel de Fernando em suas obras. Seus filmes são sempre visualmente impecáveis, com aquela fotografia beirando a genialidade. Aprendi nas minhas aulas de cinema que um bom Diretor de Fotografia pode tomar para si a condução do filme. Um bom diretor de fotografia pode sustentar um filme dirigido por um cineasta razoável. Não estou acusando Meirelles de se apoiar nos ombros de seu diretor de fotografia, mas gostaria de saber como ele se sairia sem César Charlone.

Outro questionamento: qual o papel de Meirelles na condução da produção? Se nem mesmo ele sabia o que queria com sua obra (foram feitas diversas versões do filme), quem poderia ter? Não foi isso que provocou o vazio que é a obra?

Ensaio Sobre a Cegueira me incomoda por não deixar claro o que sinto. Não consigo nem odiar nem amar o filme. Ensaio é um quadro sem explicação.

Pontos fracos: trilha sonora equivocada, atuações frias de quase todo o elenco (com peso maior para Mark Ruffalo, um poço de apatia), incoerências dramáticas (quase todos as personagens aceitam a cegueira passivamente) e pressa em apresentar a seqüência de acontecimentos (que dizem ser fiel ao livro).

Pontos fortes: Julianne Moore que sustenta todo o filme em suas costas, a fotografia experimental e poética de César e a brilhante edição de som e imagem, ambas geniais (aquelas fusões e fades e o uso sutil e delicado do Dolby Digital são talvez os maiores destaques ao lado da fotografia).

PS1: No próximo post, algo sobre nascer no lugar errado, talvez algumas coisas sobre meu coração, talvez algumas coisas sobre minhas deficiências.

PS2: Essa cidade é um tédio...

PS3: Um dia eu vou me curar de tudo isso.

Rascunhos de algo futuramente maior

9/10/2008

Ana já não segurava a esfera com a força inicial. Se a pressão aplicada ao objeto significasse um súbito desinteresse por aquela situação, então a garota ameaçava abraçar de vez o desapontamento. Suas mãos antes tão interessadas em percorrer o objeto avermelhado em busca de algum detalhe que houvesse passado despercebido, já não dedicavam tanta atenção a essa tarefa.

O peso da esfera não correspodia ao seu tamanho diminuto. Poderia ser escondido facilmente nas mãos de Ana, o que lhe ajudou quando não quis ser questionada sobre o que era aquilo que segurava cautelosamente. A garota poderia apostar que o artefato não pesava menos que 3 ou 4 quilos, embora sugerisse um peso inferior ao de uma bola-de-gude.

A esfera chegou ao quarto de Ana em uma sexta. A garota estava coberta com sua manta vermelha com detalhes bordados em laranja clichê. Ela nunca soube ao certo como aquilo entrou pela janela. O barulho do objeto arremessado ao chão do quarto não teria acordado Ana se ela não possuísse uma audição tão invejável. Um barulho ínfimo, como um passo cuidadoso de um larápio noturno. Ela sabia que aquele objeto deveria ter feito um alarde em proporções maiores ao chocar-se com o chão, mas não fez.

Do alto do morro Ana lutava contra três mosquitos que insistiam em sugar o seu sangue. A garota deixou que os três pousassem sobre seu braço esquerdo, esperou que os três se acomodassem confortavelmente para o lanche e com um único tapa os esmagou. Mesmo sabendo que as criaturas já estavam irremediavelmente mortas, deferiu outros quatro tapas contra seu braço. O sangue dos mosquitos manchou a palma das mãos de Ana e ela sentiu-se vingada.

O céu parecia estar mais claro do lado esquerdo. Estranho, já que o sol se pusera do lado completamente oposto. O clarão poderia estar vindo de uma grande fonte luminosa artificial, mas Ana sabia que para qualquer direção que se caminhasse, por pelo menos 20 ou 30 quilômetros, não haveria nenhuma carga luminosa que provocasse o efeito que observava.

A situação em que se encontrava era tão absurdamente estúpida que esse fenômeno não pareceu impressionar a garota. Prosseguiu segurando com mãos frouxas a esfera vermelha e tentou do alto do morro localizar sua casa.

Sua mãe gritava sempre tão alto que pareceu ser mais sensato localizar a sua casa pelos gritos agudos da sua matriarca do que geograficamente. Ana nunca havia subido tão alto no morro, mas sabia que sua cidade era ridícula e pequena. Daquela posição podia ver todas as oito ou dez quadras que formavam a fria cidade.

Um novo mosquito voltou a atacar a garota. Dessa vez Ana não obteve êxito. Abaixou a cabeça para atacá-lo em sua perna direita. No mesmo instante, um estampido bradou do céu. Olhou para o firmamento acima de sua cabeça e viu uma estrela vermelha expandir-se gradativamente. Um novo estampido. Dessa vez quadros raios vermelhos saíram da estrela – um na direção norte, outro na direção sul, outro na direção oeste e outro na direção leste. A esfera avermelhada queimou a mão de Ana. Ela a atirou ao chão e não conseguiu demonstrar dor. Levantou-se com perna trêmulas. Um novo estampido e de repente Ana estava observando tudo no horizonte ser tragado para o céu. As casas se despedaçaram em pequenos pedaços e subiram. Carros, humanos, vacas e placas eram transformados em pó e depois levados ao céu. Poucos segundos transformaram toda a paisagem ao redor de Ana em nada. O morro agora era uma ilha.

Um silêncio irônico reinou por alguns segundos. Da mesma estrela, desceu um raio até a cabeça de Ana. A esfera avermelhada flutuou milagrosamente ao redor da garota e penetrou sua barriga. De repente a garota sentiu como se todo o seu corpo estivesse sendo sugado para o seu estômago. Todo o seu corpo queimou.

...


Ana acordou sobre uma cama esculpida em pedra-sabão branca. Fechou novamente os olhos e ouviu sussurros ao seu redor. Quando tornou a abrí-los uma voz sem origem física comentou:

- Parabéns, você acaba de destruir o planeta, sua estúpida.

Ana não conseguiu pensar em nada. Fechou os olhos e esperou acordar na sua pequena e rídicula cidade sobre sua manta vermelha com detalhes bordados em laranja clichê.

Sobre sentimentos compartilhados bilateralmente

8/21/2008

Ontem resolvi caminhar pela praia de Iracema. Provavelmente, não fazia isso desde os meus 17 anos. Fui até a ponte metálica, andei pelo calçadão à beira-mar e parei um pouco na estátua de Iracema. O pôr-do-sol estava surpreendentemente lindo e alguns casais faziam afagos uns nos outros.

Aquelas ruas possuem uma energia estranha. Ecos de alguma coisa mal resolvida. É nossa cidade fantasma particular. Fiquei imaginando como esses lugares de repente se transformam em não-lugares. Tijolos expostos, meninas expostas, pedras soltas tropeçam em nossos pés suplicando algum movimento.

Gosto de andar sozinho. Gosto de andar sem me preocupar muito por onde ando. Geralmente isso não importa. Nesses momentos tenho conclusões elucidativas, questionamentos ficam impacientemente sem resposta e pareço ter mais idéias aproveitáveis do que geralmente tenho.

Óbvio que não consegui terminar meu projeto de mestrado. Na verdade não tenho nenhuma idéia para ele. Talvez o cinema esteja tão distante do meu coração que já não dá mais. Começa a parecer razoável a idéia de esquecer essa coisa de arte. Começa a parecer razoável a idéia de esquecer uma porção de outras coisas.

Estou quase convencido de que essa situação de sentimentos compartilhados bilateralmente não foi feita para mim. Alguém deve ter amaldiçoado minha alma por 2 ou 3 vidas. Provavelmente estarei com 40 anos comendo uma barra de chocolate ao leite ainda esperando algo especial acontecer. Farei algumas ligações descompromissadas, outras tantas com intenções minuciosamente planejadas. Concluirei que já não há nada mais o que fazer. Para falar a verdade, eu já acredito que não há mais nada o que fazer. Não tenho expectativas por nenhum clímax nas seqüências seguintes. Minha vida é um filme do Gus Van Sant: banal, sem clímax e com uma tragédia anunciada desde o primeiro plano.

Acho que estou ficando surdo. Os fones de ouvido estão deixando seqüelas. Fiquei pensando esses dias como nossa vida ganhou trilha sonora nesses últimos anos. Todo mundo anda com seu mp3 portátil por aí. Cada um tem sua trilha sonora particular. Como em um filme interativo em que nós somos ator e cineasta. Passeio de ônibus ao som de The Walkmen, ouço Tom quando a noite cai, uma ou duas canções do Wilco quando penso nela.

Pensei em escrever sobre aquelas pessoas que dizem ter crescido ouvindo Tom Waits, Bob Dylan, Belle and Sebastian e Sonic Youth, mas não farei isso. Eu os deixarei em paz com essa história romantizada e ficcional.

Recomendação da semana:
http://www.myspace.com/bluebellmusic

Bruno, cansado e esperando ansiosamente o show do Hives. Alguém aqui vai pular até a lua quando ouvir o primeiro riff de guitarra.


Punch-drunk (love?)